Bebidas e alimentos podem modificar o pH corporal?

Bebidas e alimentos podem modificar o pH corporal?

Fala-se muito em dietas para alcalinizar o corpo ou impedir que o sangue fique ácido e, assim, a pessoa possa evitar uma série de doenças, como o câncer, por exemplo. Mas será que isto tem fundamento científico?
Não. A alimentação não é capaz de reduzir ou aumentar o pH do sangue ou de qualquer outro órgão do nosso corpo. A natureza criou nosso sangue ligeiramente alcalino, situado na faixa entre 7,35 a 7,45 de pH, sigla que significa potencial de Hidrogênio. Todos os nossos órgãos mantém um pH exato e próximos ao do sangue, não mais que 1% para mais ou para menos, exceto o estômago que é naturalmente mais ácido devido à fabricação do ácido clorídrico responsável pela digestão. Esta condição não pode ser alterada e não se altera nunca, senão morreríamos rapidamente. Fora do intervalo do pH natural de cada órgão e do sangue, diversas enzimas e proteínas deixam de funcionar parcial ou completamente, o que pode levar virtualmente qualquer célula, tecido, órgão ou sistema a deixar de exercer adequadamente suas funções fisiológicas. Isto quer dizer que nosso organismo entraria em colapso.

Como é feito o balanceamento do pH corporal

O único momento em que nosso corpo é totalmente alcalino é quando morremos. Isto acontece porque paramos de respirar oxigênio. A presença de O2 no organismo é a verdadeira causa do balanceamento do pH de nosso sangue e de todos os nossos órgãos. Portanto, os alimentos não influenciam em nada.  Respiramos oxigênio para ativar o processo de combustão que produz energia em nossas células. Depois desta combustão, o oxigênio se transforma num resíduo chamado dióxido de carbono, ou CO2. O oxigênio alcaliniza nosso sangue, enquanto o gás carbônico acidifica. Quanto mais rápido nós respiramos mais alcalinizamos nosso sangue. Só que o cérebro e os pulmões são capazes de regular o pH sanguíneo minuto a minuto. Assim, quando a respiração está mais acelerada também produzimos mais dióxido de carbono, que é exalado para acidificar o sangue, ou seja, contrabalancear a alcalinização provocada pela quantidade e velocidade de oxigênio que respiramos. Isto de maneira precisa e milimétrica. E da mesma forma, quando estamos em repouso, principalmente dormindo, respiramos menos oxigênio e produzimos menos dióxido de carbono. Com o sangue sempre estabilizado, todos os nossos órgãos que são irrigados por ele também se mantêm corretamente balanceados.

O papel dos rins no equilíbrio do  pH

Os defensores da teoria da acidificação do sangue se baseiam no exame de urina de uma pessoa que comeu bastante comida acidificante, como carne vermelha, ovos e leite, por serem ricas em proteínas, e dizem “olha só, vejam como o pH da urina ficou ácido”. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Quando a urina fica ácida significa que os rins estão expelindo o excesso de substâncias que tornariam nosso organismo mais ácido que o normal. Da mesma forma, quando a urina fica alcalina também quer dizer que os rins estão despejando coisas que tornariam nosso corpo mais alcalino. Portanto, o balanço ácido-alcalino de nosso corpo não pode ser quebrado, exceto se os nossos rins pararem de funcionar ou pararem de filtrar adequadamente as toxinas de nosso sangue. Ou nosso pulmão deixar de exercer seu papel fundamental na respiração, que é a movimentação adequada de oxigênio e gás carbônico em nosso sangue. Estas são patologias graves que nos matariam.

Sistema tampão do bicarbonato

Outra forma do nosso organismo manter o pH sanguíneo ajustado é através do chamado sistema tampão do bicarbonato. Sempre que há uma reação ácida no sangue capaz de prejudicar o seu pH, o corpo fabrica bicarbonato de sódio para neutralizar a acidez e manter o nível normal do pH do sangue.

Porque alimentos ácidos são prejudicais à saúde

O pH não pode ser alterado sem modificar as funções de cada órgão. Assim, nada que comemos ou bebemos pode “acidificar” ou “alcalinizar” nosso organismo, exceto a urina. Então porque o consumo excessivo de alimentos ou bebidas ácidas prejudicam a nossa saúde? Vamos tomar como exemplo a água da torneira, que tem geralmente um pH em torno de 6,0 ou menos, quando o  ideal seria entre 7,0 e 9,0. Como 70% do nosso corpo é água, teremos então a presença de um elemento abundante em nosso corpo com teor ácido, o que prejudica uma boa  absorção das vitaminas, minerais e suplementos alimentares e favorece a proliferação de patógenos, como bactérias, vírus e outros microorganismos perigosos para o corpo. Por isto, beber assiduamente refrigerantes, que têm pH menor que 3,0, faz mal para o nosso organismo. Quanto aos alimentos, é só lembrar que todos são formados também por água, onde está justamente o nível de acidez deles. Quanto mais comemos estes alimentos, mais estamos ingerindo água ácida, que tem tudo a ver com o exemplo da água ácida da torneira.

O que é a acidez estomacal

Acidez estomacal não tem nada a ver com desequilíbrio do pH do estômago. A azia ou refluxo gastroesofágico ocorre devido a um defeito na válvula esofagiana, que permite o retorno dos alimentos, bebidas e sucos gástricos no fluxo contrário ao da digestão. Ou seja, do estômago para o esôfago. Com isso, ocorre uma irritação nas paredes do esôfago, que não está preparado para receber esse refluxo, gerando uma sensação de queimação ou azia. A obesidade, a gravidez e a hérnia de hiato também provocam o refluxo. O excesso de peso pela obesidade ou o aumento do volume e do peso do útero durante a gestação fazem os alimentos que chegaram ao estômago se movimentarem no sentido errado retornando ao esôfago.  Já a hernia de hiato, doença em que há um mal posicionamento do estomago e do esôfago, impede o fechamento correto da válvula esofagiana depois da passagem do alimento para o estômago, permitindo que o suco gástrico retorne ao esôfago. É isto que provoca a acidez estomacal.