Exame de sangue é um raio-x da sua saúde mas é preciso entender o que ele diz

Exame de sangue é um raio-x da sua saúde mas é preciso entender o que ele diz

O hemograma, popularmente conhecido como exame de sangue, é um dos testes mais solicitados pelos médicos para avaliar o estado de saúde de um paciente ou detectar em situações quando há sintomas como febre, fadiga e fraqueza, entre outros, doenças que podem causar sérias complicações, como leucemia, anemia e infecções bacterianas ou virais, além de  alergias e hemorragias. Mas é importante ressaltar que nem todo exame de sangue é um hemograma. O médico pode, por exemplo, solicitar um exame de sangue para saber se a glicose anda controlada, caso em que é feita a dosagem da glicose sanguínea. Verificar o metabolismo, medindo os níveis de T3 e T4, hormônios produzidos na tireoide. Ou pode também pedir um exame de sangue específico para HIV, o vírus da AIDS, ou para detectar infeções por bactérias. O exame de sangue pode ainda mostrar se uma pessoa usa drogas ou se é hemofílico, doença genética essencialmente hereditária que compromete a capacidade do corpo em formar coágulos sanguíneos, um processo necessário para parar as hemorragias.

Quando o objetivo do exame de sangue é o hemograma ele se divide em:

  • Eritrograma, que faz a análise das células vermelhas do sangue – as hemácias
  • Leucograma, que verifica a contagem dos leucócitos, também chamados de glóbulos brancos, células responsáveis pela defesa do organismo
  • Plaquetas, contagem dos fragmentos de células que são produzidos na medula óssea responsáveis pela coagulação do sangue, como no caso de um ferimento, quando as plaquetas liberam uma enzima chamada tromboplastina, que evita uma hemorragia

Os valores de referência, ou seja, aqueles que mostram os níveis normais do sangue, variam de acordo com a idade da pessoa. Pequenas variações para mais ou para menos não necessariamente indicam alguma doença. Mas, obviamente, quanto mais afastado um resultado se encontra do valor de referência, maior é a chance disso verdadeiramente representar alguma patologia. Entretanto, os valores de referência variam de acordo com a idade, sexo e etnia. De modo geral, os laboratórios não fazem esta diferenciação no resultado dos exames, competindo ao médico fazer esta análise clínica. Outro detalhe é que nem sempre um resultado normal significa que a pessoa não esteja com algum problema de saúde, como da mesma forma uma resultado anormal não quer dizer, necessariamente, que a pessoa está doente. O resultado é somente um indicativo para o médico aprofundar a investigação sobre a possibilidade de uma patologia.

ENTENDA O ERITROGRAMA 

Os eritrócitos, também conhecidos como hemácias ou glóbulos vermelhos, são responsáveis pelo transporte de oxigênio dos pulmões para os tecidos do corpo. Para que eles funcionem corretamente é preciso que o nosso organismo tenha níveis adequados de ferro. A carência deste mineral provoca a anemia, que é a condição na qual a hemoglobina no sangue está abaixo do normal, levando à diminuição da capacidade de transporte de oxigênio. Com a redução de oxigênio as células produzem menos energia, causando um enfraquecimento da pessoa, que pode levar, inclusive, ao óbito. No eritrograma são analisados os níveis de:

Hemoglobina

Proteína que transporta o oxigênio para as células. Sua medida é em grama por decilitro de sangue. O valor padrão é de 14 a 17,5 g/dL para homens e 12,3 a 15,3 g/dL para mulheres.

Hematócrito

É a medida em porcentagem de sangue ocupada pelas hemácias. Nos homens seu valor é de 41,5 a 50,4% e nas mulheres de 35,9 a 44,6%.  Valores baixos podem representar anemia e valores altos podem indicar policitemia ou excesso de glóbulos vermelhos no sangue, geralmente causado por uma disfunção da medula óssea, que regula a sua produção.

VCM (Volume Corpuscular Médio)

Mostra o tamanho dos glóbulos vermelhos. Hemácias muito pequenas, denominadas microcíticas, ou hemácias grandes, denominadas macrocíticas, significam que algo está errado. A microcitose pode ser causada pela deficiência de cobre e a macrocitose por abuso de álcool, deficiência de ácido fólico, deficiência de vitamina B12, reticulocitose (recuperação de anemias hemolíticas, carenciais e sangramentos), síndromes mielodisplásicas, leucemia mielóide aguda, hepattite crônica, medicamentos como zidovudina e hidroxiureia e hipotireoidismo. O valor padrão do VCM é de 80 a 96 fL (fentolitro, unidade de medida de volume igual a 10-15 litro ou 1 micrômetro cúbico (μm3).

HCM (Hemoglobina Corpuscular Média)

Conta a quantidade média de hemoglobina presente nas hemácias. Seu valor padrão é de 27,5 a 33,2 pg (picogramas, unidade de peso equivalente a um milionésimo de micrograma). Quando o resultado está acima de 33 pg no adulto indica anemia hipercrômica, alterações da tireóide ou alcoolismo. As causas do HCM alto se devem ao aumento do tamanho dos glóbulos vermelhos, que são maiores que o desejado, levando ao surgimento de anemia megaloblástica causada pela falta de vitamina B12 e ácido fólico. Quando os valores estão abaixo de 26 picogramas no adulto, isso indica anemia hipocrômica que pode ser causada por anemia ferropriva, devido a falta de ferro, e a talassemia, que é um tipo de anemia genética.

CHCM (Concentração da Hemoglobina Corpuscular Média):

É a medida do nível de concentração da hemoglobina dentro de uma hemácia. Pouca hemoglobina nas hemácias, ou hipocromia,  é causada pela falta de ferro no organismo, acarretando anemia. Os valores normais do CHCM é de 33,4 a 35,5 g/dL.

RDW (Amplitude de Distribuição dos Eritrócitos)

Existem dois tipos de medição do RDW, um como Coeficiente de Variação e outro que mede o Desvio Padrão.  Mas ambos mostram se as células são todas iguais ou de tamanhos ou formas diferentes. Seus valores se situam entre 11,6 a 13,7 g/dL.

ENTENDA O LEUCOGRAMA

É a parte do exame de sangue que avalia os leucócitos, também chamados de glóbulos brancos, que são as células responsáveis pela defesa do organismo. Os leucócitos totais devem se situar numa faixa entre 4.500 a 11.000 células por microlitro (mcL) de sangue. Eles se subdividem em:

Basófilos

Representam menos de 1% dos leucócitos, mas são muito importantes no funcionamento de nosso sistema imunológico. Durante o combate a uma infecção em nosso corpo, os basófilos liberam duas importantes substâncias. A heparina, que é um poderoso anticoagulante. E a histamina, que atua como vasodilatadora nas alergias. Seus valores se situam entre 0 e 200 basófilos por milímetro cúbico (mm3) de sangue.

Eosinófilos

Tipo de glóbulo branco do sangue que desempenha um papel importante na resposta do organismo a reações alérgicas, asma e infecção por parasitas. Essas células participam da imunidade protetora contra certos parasitas, mas também contribuem para a inflamação que ocorre em distúrbios alérgicos. Representam cerca de 2,7% dos leucócitos totais. Seus valores se situam entre 0 e 450 mm3 de sangue.

Neutrófilos

Representam 56% dos leucócitos totais. São, portanto, os glóbulos brancos mais comuns em nosso sangue. Seus valores se situam na faixa entre 1800 a 7800 células por mm3 de sangue. Resultado abaixo dos valores de referência podem indicar problema de doença autoimune, deficiência alimentar, reação a drogas, imunodeficiência, medula óssea deficiente ou câncer da medula, além de mielodisplasia, doença grave e pouco conhecida, comumente confundida com a anemia. As células imaturas, conhecidas como bastões, blastos ou bastonetes, representam menos de 5% de todas as células da medula óssea. Pessoas com mielodisplasia taxas de células imaturas muito acima deste padrão, chegando a atingir mais de 20%, quando se configura uma caso de leucemia mieloide aguda.

Linfócitos

É um tipo de célula que faz parte da defesa imediata do corpo, representando 34% do nosso sistema imunológico. Atuam contra células cancerígenas e infecções virais. Produzidos na medula óssea a partir de células-tronco, são classificados em 3 tipos: natural killers (NK), linfócitos B e linfócitos T. Os natural killers são os responsáveis pela faxina em nosso organismo,  eliminando as células doentes ou degenerativas, evitando que se transformem em tumores. Atacam também os vírus. Já os linfócitos B têm a função de criar a nossa memória imunológica, sendo, portanto, responsáveis por ativar o contra-ataque de nosso organismo contra os patógenos. E os linfócitos T nos protegem contra vírus, fungos e bactérias. O HIV – vírus da AIDS – consegue, entretanto, burlar a nossa defesa imunológica e entrar para o interior dos linfócitos T, destruindo sistematicamente estas células, propiciando o aparecimento de doenças virais, como a tuberculose, que é a forma mais comum de morte dos aidéticos. Os remédios a base de corticoides também afetam a produção de linfócitos, bem como a hepatite, a gripe, o lupus, a artrite reumatódie, a febre tifóide e a radioterapia e a quimioterapia. Seus valores se situam entre 1000 a 4800 células por microlitro (mcL) de sangue.

Monócitos

Sua função principal é defender o organismo de corpos estranhos, como bactérias ou vírus, mas também destroem células tumorais, removem células mortas, senescentes ou alteradas do nosso corpo, além de partículas estranhas. Somam 4% das nossas células de defesa e seus valores se situam entre 0 a 800 células por microlitro (mcL) de sangue. De modo geral, quando apresentam valores baixos em um exame de sangue não representam perigo considerável. Contudo, sua repetição de valores baixos em exames seguidos já se torna uma preocupação, pois pode indicar um quadro de dano ou falha na medula óssea.

ENTENDA O RESULTADO DAS PLAQUETAS

A função das plaquetas é estancar o sangramento, tanto interno quanto externo em nosso corpo, quando ocorre um ferimento ou hemorragia. São, portanto, células coagulantes. Quando sua contagem fica abaixo do normal, a pessoa apresenta um quadro denominado trombocitopenia,  que causa sangramentos espontâneos e pode levar a pessoa à morte. Dentre as causas da trombocitopenia  estão infecções virais, como a dengue, febre em decorrência de altitude, ingestão de drogas,  doenças autoimunes, septicemia, cirrose, leucemia, linfoma, mielodisplasia ou radioterapia. E quando a contagem fica acima do normal temos um quadro de trombocitose,  também denominada hiperplaquetose, que acarreta a má circulação sanguínea, podendo levar a uma predisposição para a trombose, que se caracteriza pela formação de um coágulo sanguíneo no interior de um vaso do sistema circulatório (veias e artérias), causando a obstrução da passagem de sangue. Os valores normais das plaquetas se situam entre 150.000 a 450.00 por mm3 de sangue.

ENTENDA O PLASMA SANGUÍNEO

Além do hemograma é importante também a avaliação de outros indicadores presentes no sangue que mostram se nosso organismo está provido de quantidade adequadas de proteínas, minerais e vitaminas essenciais para a manutenção da nossa saúde. Para isto, é preciso uma análise do plasma, a parte líquida do sangue que corresponde a 55% do seu volume total. A maioria das doenças é causada pela deficiência nos micronutrientes, devido a uma alimentação desbalanceada e com ausência de ingredientes que forneçam os valores diários necessários para suprir a demanda de nosso corpo. O consumo de massas de farinha de trigo está aumentando cada vez mais, fornecendo carboidratos de rápida dissolução em glicose, causando obesidade, pressão alta e diabetes, além de deixar o corpo desnutrido de proteínas, minerais e vitaminas. Taxas de glicose acima de 450 mg/dL podem acarretar a perda da consciência e levar a um coma diabético.

Veja outros problemas graves que podem ser detectados pela análise do plasma:

Ácido Úrico

Taxa maior que 13 mg/dL pode acarretar nefropatia aguda, com bloqueio tubular à insuficiência
renal

Cálcio

Valores menores que 6,3 mg/dL acarretam a hipocalcemia, que se caracteriza por cãibras musculares, as pessoas podem se tornar confusas, deprimidas e esquecidas, apresentar formigamento em seus lábios, dedos e pés, além de pés rígidos e músculos doloridos. Já os valores maiores que 14 mg/dL  causam a hipercalcemia, excesso de cálcio no sangue, que pode enfraquecer os ossos, conduzir à formação de cálculos renais e interferir com o funcionamento do coração e do cérebro.

Potássio

Quando ele está abaixo de 2,8 mEq/L ou acima de 6,2 mEq/L pode ocorrer uma obstrução intestinal, acidose metabólica, infecção aguda, necrose tubular aguda ou falência cardíaca congestiva.

Sódio

Valores menores que 120 mEq/L ou maiores que 160 mEq/L acarretam um intenso transtorno da tonicidade (distribuição da água entre o espaço intracelular e extracelular) devido a um distúrbio do mecanismo da sede e/ou do hormônio antidiurético, da ingestão de água ou da capacidade de concentração e diluição renais. Os
sintomas clínicos de uma hiponatremia intensa se devem a um déficit de volume. As manifestações principais de uma hipernatremia traduzem transtornos do sistema nervoso central, como, por exemplo, desorientação, aumento da irritabilidade neuromuscular com espasmos e ataques convulsivos.

Tiroxina (T4) livre e Triiodotironina (T3) total

O T3 é o pré-hormônio da tireóide e o T4 o hormônio que vem do T3 e é responsável por regular o nosso metabolismo.  Para que o T3 se transforme em T4 é necessária a presença do iodeto na tireóide, a qual, por sua vez, só absorve o iodeto estimulada pelo sódio. Por isso, hoje no Brasil todos os fabricantes de sal são obrigados a acrescentar o iodeto na sua composição.

Ureia

Valores acima de 214 mg/dL indicam insuficiência renal aguda.

Como você viu, o exame de sangue é capaz de fazer um verdadeiro raio-x da nossa saúde. Mas, além dele, é essencial a avaliação clínica do seu médico, que, de acordo com a sua amostragem, poderá também solicitar exames complementares e mais específicos para cada tipo de problema.