Óleo de Lorenzo, quando o amor fala mais alto que a ciência

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Quando nasceu em 1978, o norte-americano de ascendência italiana por parte de pai, Lorenzo Odone, era portador de uma doença rara chamada adrenoleucodistrofia, também conhecida como ALD, causada por um gene mutante do cromossomo X e transmitida pela mãe para os bebês do sexo masculino. Ela ataca as células brancas do cérebro afetando todo o sistema nervoso central, provocando demência severa, perda de visão, da audição e da fala.  A doença se manifesta, geralmente, entre os 4 e 10 anos de idade. Lorenzo tinha 6 anos quando começaram a aparecer os primeiros sintomas em forma de convulsões. Depois de várias consultas médicas sem resultado, finalmente os pais de Lorenzo, Augusto e Michaela Odone, conseguem o diagnóstico de adrenoleucodistrofia. E, na previsão médica, ele teria mais dois anos de vida e com muito sofrimento, pois não havia ainda um tratamento eficaz para a doença. Vendo o filho piorar a cada dia, os pais de Lorenzo decidiram buscar por conta própria uma solução para a sua cura. Passavam dias e noites debruçados em livros, iam em conferências médicas e conversavam com vários pesquisadores, até que um dia um deles deu a dica que iria mudar o destino de Lorenzo. A adrenoleucodistrofia progredia em relação direta à ingestão de alimentos que contêm principalmente ômega 3 e ômega 6, uma vez que o gene defeituoso que ocasiona a doença é responsável pela codificação de uma enzima relacionada ao transporte de ácidos graxos de cadeia longa de carbono para o interior das células. Com a doença, estas substâncias ficam impedidas de penetrar no citoplasma, camada que circunda o núcleo das células onde elas são queimadas e transformadas em energia. Com isso, se acumulam no interior celular, ocasionando a destruição da bainha de mielina, conjunto de células que têm a função de acelerar a velocidade do impulso nervoso. Daí a atrofia causada pela adrenoleucodistrofia.

Então, o grande desafio que os pais de Lorenzo encontraram foi descobrir uma forma de interromper a síntese dos ácidos graxos de cadeia longa de carbono, uma vez que mesmo uma dieta rigorosa acaba fornecendo estas substâncias para o nosso organismo, pois estão presentes tanto em alimentos de origem animal quanto também vegetal. Foi aí que outro pesquisador deu uma nova dica de ouro para os pais de Lorenzo. O ácido oleico (trioleína) contido no azeite de oliva era capaz de neutralizar a síntese dos ácidos graxos de cadeia longa de carbono. Foi um grande avanço, mas era só meia verdade. O ácido oleico só controlava esta síntese em até 50% por cento. E o estado de saúde Lorenzo continuava a se deteriorar. Sem perder a esperança, movidos pelo amor descomunal que só pais têm por um filho, eles continuaram buscando ajuda para achar a solução para a doença do menino, quando receberam outra informação que, finalmente, levaria à criação do chamado Óleo de Lorenzo. Para que o ácido oleico se tornasse realmente eficaz era necessário sua mistura, na proporção de 4:1, com o raríssimo ácido erúcico (trierucina), obtido do óleo de colza, comercializado como óleo de canola nos supermercados. O problema era como conseguir este ácido, não disponível para venda. Augusto e Michaela Odone acabaram chegando a um bioquímico inglês prestes a se aposentar que aceitou o desafio de produzir para eles o ácido erúcico. Foi tiro e queda.

O Óleo de Lorenzo não cura em 100% a adrenoleucodistrofia, mas recuperou os seus movimentos, a sua fala e a sua audição e, em vez de morrer aos 8 anos de idade, como previram os médicos,  Lorenzo Odone viveu até os 30 anos de idade, vindo a falecer em 30 de maio de 2008 em sua casa na Virgínia, nos Estados Unidos. A história de Lorenzo é uma grande lição de amor, fé e esperança. E um exemplo de que jamais podemos desistir de lutar pela vida. Pois, mesmo quando tudo está perdido sempre existe uma luz para nos guiar no caminho.

A saga dos pais de Lorenzo foi retratada no filme O Óleo de Lorenzo, de 1992, estrelado por Nick Nolte e Susan Sarandon. Vale a pena assistir.